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segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Livro dos Mistérios de Deus Segundo Caim




Livro dos Mistérios de Deus Segundo Caim

Para José Saramago



[Porque sou aquele a quem...]
I. chamaram Caim, em tempos
II. longínquos [mas muito antes
III. dos Princípios Primeiros], e
IV. porque meu nome caiu nas
V. mãos de Santos e Ímpios, devo
VI. eu mesmo contar das Razões o
VII. que sei. Da forma que melhor
VIII. que possa.

IX. [...]
X. [...]
XI. [...]
XII. Ouvi, pois.
XIII. [...]
XIV. O que Deus fez, antes que
XV. De mim se ocupasse, foi Emanar
XVI. De Si, miríades de seres. O Primeiro
XVII. Sacrifício foi Emanar-se. Alguns diriam
XVIII. Ser da Ordem da Emanação, como nos
XIX. Sonhos, onde do Eu se emanam feixes
XX. De personagens. Outros referem-se,
XXI. Mais propriamente, ao aroma que
XXII. evola [ou que transpira] do Frasco
XXIII. de Perfume. Então, Não haveria
XXIV. Sacrifício. Mas pura Expressão
XXV. Incontornável.
XXVI. [...]
XXVII. [...]
XXVIII. Estão certas ambas as opiniões.
XXIX. E mais cento e dez.
XXX. Ouvi, pois.
XXXI. [...]
XXXII. [...]
XXXIII. Em Sua Emanação, Deus Gerou
XXXIV. De Si, Tudo que Estava Ligado
XXXV. À Própria Fonte: como os
XXXVI. Personagens estão ligados
XXXVII. [...]
XXXVIII. Ao Sonho e ao Sonhador.
XXXIX. Como o Aroma está ligado
XL. Ao Frasco Sagrado e Secreto.
XLI. Mas Deus não era Secreto,
XLII. Ainda.
XLIII. [...]
XLIV. Tudo o que Existia estava
XLV. Ligado à Luz. Mas Evolvia e
XLVI. Se Desdobrava. Pois Deus não
XLVII. Cessava de Criar.
XLVIII. [...]
XLIX. [...]
L. Sim. Havia um Limite para o
LI. Criado, Mas a Criação haveria
LII. De ser Sem-Fim. Isso era, tão
LIII. somente, Deus-Se-Expressando.
LIV. Que se fixe bem essa Noção.
LV. [...]
LVI. [...]
LVII. Ouvi, pois. Com Mente e
LVIII. Coração.
LIX. [...]
LX. [...]
LXI. Havia um Limite Externo à
LXII. Criação: a Borda do que Não
LXIII. Fora Criado. Tudo o que Ouve
LXIV. E Respira Pressentia a Borda,
LXV. Desde a Primeira Hora.
LXVI. [...]
LXVII. [...]
LXVIII. E as Coisas Vivas eram
LXIX. Sustentadas na Própria
LXX. Fonte, e da Própria
LXXI. Fonte.
LXXII. [...]
LXXIII. O que dizer disso?!
LXXIV. Cada Qual [Criatura
LXXV. Vivente, Nascida de Deus,
LXXVI. Mas não Igual] dava certo
LXXVII. Nome a esta Borda.
LXXVIII. Deus Ouvia Todos os Nomes.
LXXIX. E um Nome Próprio Lhe Dava
LXXX. Deus.
LXXXI. Era a Fronteira do que Poderia
LXXXII. [Ser], Diziam Alguns. Mas Deus,
LXXXIII. Simplesmente, lhe Chamava
LXXXIV. Borda. Sabendo Que Sua Própria
LXXXV. Criação Haveria Sempre de
LXXXVI. Se Expandir. Mas Desde a
LXXXVII. Fonte. E Sendo Infinito o Criar
LXXXVIII. [Em Si Mesmo, e no Espaço-Tempo],
LXXXIX. “Haveria de Haver” Um Limite. Daí a
XC. Borda.
XCI. [...]
XCII. [...]
XCIII. [...]
XCIV. O Além-Borda era chamado, por
XCV. Alguns, Trevas Exteriores. Mormente
XCVI. Por Lúcifer, que significa: Aquele que
XCVII. É um Facho [de Luz] em Sua Própria
XCVIII. Presença. Aquele que De Si Emite Luz,
XCIX. Conforme a Fonte.
C. [...]
CI. [...]
CII. Há de se dizer que toda a Criação de
CIII. Deus Emitia Luz. Por Ser conforme a
CIV. Fonte. Porém, o Epíteto dado a
CV. Lúcifer se dava mais pelo fato dEle
CVI. Estar particularmente Ciente dessa
CVII. Luz emitida. E, sobretudo, de se
CVIII. Identificar com Ela. Essa também
CIX. Era uma das Razões dEle Chamar
CX. De “Trevas Exteriores” o que Deus,
CXI. Simplesmente, chamava Borda.
CXII. [...]
CXIII. [...]
CXIV. Pois Deus sabia poder preencher
CXV. Essa Borda, ao longo dos Eons [os
CXVI. Longos Períodos da Criação]. Ou
CXVII. Melhor: Sempre Extendê-la para
CXVIII. Adiante. Ou Reduzi-la. Ou Preenchê-la,
CXIX. E Fazer a Criação Evolver-Se dentro de
CXX. Si Sem sair de Si. Esse é o Primeiro
CXXI. Mistério [Trinitário]. O Segundo
CXXII. Mistério é Considerar como Deus
CXXIII. Emana. Tal Qual o Sonhador, pode-se
CXXIV. Concebê-lo Sonhando Todos Os Dias [ou
CXXV. Noites]. Mas, tal qual o Perfume, ter-se-ia
CXXVI. De imaginá-Lo Inesgotável em Sua Substância:
CXXVII. Como Se a Si Mesmo Se Gerasse. Como
CXXVIII. Se Luz refletisse [E Engendrasse ou Parisse] Luz
CXXIX. Em Si Mesmo [e Em Si Mesma]. Por Isso, se Lhe
CXXX. Entende como Possuindo Fontes Inter-relacionadas
CXXXI. Em si mesmo: Luz refletindo Luz, antes de Emanar-se.
CXXXII. Esse é o Mistério do relacionamento de Deus em
CXXXIII. Si Mesmo antes da Criação, e que a Viabiliza ao
CXXXIV. Infinito, ainda que no tempo. Alguns chamam a esse
CXXXV. Mistério de “Pessoas”. Outros O veem como
CXXXVI. Fontes Correlatas de Luz. Outros, mais prudentes,
CXXXVII. Desistem de qualificá-Lo [e qualificar tal Relacionamento Intrínseco a Deus] em sua Própria Substância,
CXXXVIII. Mas contentam-se em defini-Lo, por aproximação,
CXXXIX. Em Seus Atributos. A versão Trinitária é uma Tentativa de
CXL. Súmula [na Verdade, uma “Sumarização”] deste Mistério,
CXLI. Que a Deus Pertence: na Origem, e desde a Origem.
CXLII. Em essência, tais Mistérios [por serem os Primeiros]
CXLIII. São Inescrutáveis, por serem Perceptíveis só no
CXLIV. Interior do Próprio Deus, em Suas Fontes Correlatas
CXLV. Que o Mantêm em Perpétuo Devir Criativo. Ou, em
CXLVI. Outros termos: por serem perceptíveis só às
CXLVII. “Pessoas” que o Constituem em Si Mesmo.
CXLVIII. Sábios são os que se abstêm de especular sobre a
CXLIX. Natureza ou “número” dessas Luzes-em-Luzes-que
CL. –Engendram-Luzes. Sábios os que se contentam em
CLI. Roçar a Borda do Manto do Criador desde Antes da
CLII. Borda, como que “pervadidos por Seu Aroma”. A
CLIII. Certo grau de limpidez na percepção da Fragrância
CLIV. Criadora das Luzes Correlatas, o ser se sente como
CLV. Que “infuso nEla(s)”. Isso é co-participação consciente
CLVI. Na Natureza de Deus. Isso se dá em Silêncio ou em
CLVII. Música. Ou em Arte. Isso se dá, sempre, em
CLVIII. Santidade. Jamais fora dEla. Não importa o
CLIX. Nome que se dê a Deus, pois que Seus Nomes
CLX. Reverberam no Interior dEssas Mesmas Fontes
CLXI. Secretas e Sacratíssimas. E o que dIsso Emana
CLXII. [qual Aroma] São Suas Emanações ou
CLXIII. Hipóstases. Os Sábios que com Isso se
CLXIV. Contentaram são os mais fidedignos com
CLXV. O que se pode falar do Mistério Primeiro
CLXVI. [ou Último]. Eles estão espalhados pelo
CLXVII. Mundo sub-lunar, e os homens os
CLXVIII. Conheceram como Ramanujacharya, Plotino,
CLXIX. Jâmblico, Amônio Saccas, Al-Gazhalli, Porfírio,
CLXX. Valentino de Alexandria, Duns Scotus e tantos
CLXXI. Outros.
CLXXII. [...]
CLXXIII. [...]
CLXXIV. O Entendimento de Deus através da percepção
CLXXV. De sua Infusão na Alma em santidade, e
CLXXVI. Da Consciência de Suas Sagradas Emanações
CLXXVII. Como Gradações-de-Si-Mesmo ou Hipóstases
CLXXVIII. É a Noção que menos Falseia sua Essência. Para os
CLXXIX. Mais prudentes, em vez de Sondar-Lhe o “Número
CLXXX. Essencial” [pois que Toda Essência é também Número],
CLXXXI. Melhor contentar-se pela aproximação gradativa
CLXXXII. [número, outra vez: proporcionalidade], através
CLXXXIII. De Seus Atributos. O estudo da proporcionalidade
CLXXXIV. Divina dos números, em suas Hipósteses ou
CLXXXV. Emanações [matemático-astronômico-musicais]
CLXXXVI. Foi esboçado no Mundo sub-lunar por Pitágoras
CLXXXVII. E pelos Pitagóricos. Platônicos, Neoplatônicos e
CLXXXVIII. Cristãos Gnósticos [além de Gnósticos Sufis-
CLXXXIX. Muçulmanos] bem como Vedantinos Hindus, desde
CXC. Ramanuja [portanto, após Shankaracharya], sempre
CXCI. Estiveram conscientes deste mistério. Outros estiveram
CXCII. Conscientes, mas abstiveram de falar das Primeiras
CXCIII. Causas ou Efeitos, preferindo evocar do Homem a
CXCIV. Consciência das coisas que lhe fossem úteis para
CXCV. Dissipar o obscurecimento no qual caiu. Sócrates,
CXCVI. E Buda assim agiram.
CXCVII. [...]
CXCVIII. [...]
CXCIX. Restaria falar de como o homem caiu no obscurecimento.
CC. Mas como esse é um relato sobre os Primeiros Mistérios
CCI. De Deus, terei de voltar à Borda, que é o Ponto-Limite
CCII. Sempre Expansivo da Criação Eterna do Eterno.
CCIII. Deus a chamava “Borda”.
CCIV. Lúcifer, por estar demasiado ciente da Luz que lhe era
CCV. Intrínseca [bem como a Todos], preferiu chamá-la de
CCVI. Trevas Exteriores. Trevas Exteriores por estar além da
CCVII. Compreensão da Luz que lhe emanava como Inteligência.
CCVIII. Lúcifer queria conhecer o além-criado e o ainda
CCIX. –por-Criar. Quis debruçar-se sobre a Borda, dizendo
CCX. a Si Mesmo ser Ali o Limite a Ser Transposto pela
CCXI. própria Luz, Impaciente com o tempo de Deus.
CCXII. Lúcifer engendrou a Idéia de preencher o além
CCXIII. –Borda com a Própria Luz que em Si Portava.
CCXIV. [...]
CCXV. [...]
CCXVI. Muitos outros com Isso não se Importavam. Mas
CCXVII. Não Lúcifer. A Essa Fronteira ou Borda entre
CCXVIII. O Criado [Emanado] ou ainda Não-Criado por Deus
CCXIX. Pretendeu-se dar Nome ou Atributo, ainda que ela fosse
CCXX. A Fronteira do Não-Ainda. Ainda que ela fosse a Espera
CCXXI. Do Ser [ou da Divina Fragrância]. Por ser exatamente a
CCXXII. Linha Limite, concebeu-se ser Ali [ou ser Ela] a
CCXXIII. Mãe do que Deus em Si Mesmo Não Pudera
CCXXIV. Conceber. Lúcifer Concebeu, em Si mesmo, que Ali
CCXXV. Era o Limite do Alcance do Poder do Próprio
CCXXVI. Deus. Por ser Fronteira, e por Estar Toda a
CCXXVII. Criação Imersa [Infusa, Difusa ou Emanada]
CCXXVIII. Da Fonte Única, Lúcifer quis ser Ele Mesmo
CCXXIX. O Propulsor do Movimento além-Divisa. Sendo ela
CCXXX. Divisa, teria de Dividir o “Já” do “Não-Ainda”,
CCXXXI. O “Concebido-Em-Deus” Pelo “Ainda-Não
CCXXXII. –Concebido”. Lúcifer quis adiantar-se, e Ele
CCXXXIII. Mesmo Concebê-lo, antes de Deus Emanar
CCXXXIV. Mais de Si Mesmo. À Linha Fronteiriça entre
CCXXXV. O Já e o Não-Ainda, Lúcifer Considerou poder
CCXXXVI. Transpor e de Si Gerar Luz que a Preenchesse
CCXXXVII. [Ciente que Era da Própria Luz].
CCXXXVIII. Chamou à Fronteira [Aquilo que era
CCXXXIX. “Simplesmente Borda”, no Plano Incessante e Progressivamente Preenchente de Deus: a que se pode considerar como O Atributo Divino da Infinita Paciência],
CCXL. Chamou Àquilo de “Mãe da Dualidade”. E Quis Fecundá-la
CCXLI. Com a Própria Luz. Sabia que por Limitado que
CCXLII. Fosse o Alcance do Facho perante o Infinito,
CCXLIII. Entreteceria, Ali, Novo Tecido. Haveria Luz
CCXLIV. E Trevas. Considerava seu Plano de Criação mais
CCXLV. Perfeito e Liberal do que o de Deus, por ser
CCXLVI. Essencialmente Dual, e por Permitir Maior
CCXLVII. Escolha. Assim Concebeu Ele em Seu Orgulho
CCXLVIII. Travestido em Glória. E Passou a considerar a Deus
CCXLIX. Como um Tirano Monarca que desencorajava a
CCL. Sondagem e fecundação do Ainda-Não [ou do
CCLI. Não-Ainda] por Sua Própria Criação. Com esse
CCLII. Argumento, convenceu Ele da Limpidez de seus
CCLIII. Propósitos a Vinte e Sete por cento dos Anjos.
CCLIV. Dizia ser o Tecido Mesclado, parido e tecido
CCLV. Pelas Primeiras Criaturas [tendo Ele à Frente],
CCLVI. Como Melhor Tecido: Mais Justo e Democrático.
CCLVII. Deus não Era Justo, mas Tirano. Segundo a
CCLVIII. Lógica do Portador do Facho [de Luz].
CCLIX. [...]
CCLX. [...]
CCLXI. Deus, “O Tirano”, Não Discutiu. Saiu de Seu Trono
CCLXII. E Um Plano de Escolha Livre Concebeu para Esses
CCLXIII. Que Intentavam Substituí-lo. Lúcifer, em sua
CCLXIV. Intensa Luxúria e Inépcia, Pensava que Deus estaria
CCLXV. Abandonando O trono em Seu Favor. De Forma
CCLXVI. Alguma. Em Seu Íntimo de Luzes em Luzes, Deus
CCLXVII. Engendrava a Oportunidade de Escolha no Não-
CCLXVIII. Ainda ou Além-Borda. Sim. Lúcifer poderia Prová-la e
CCLXIX. Provar o Alcance de Sua Prepotente Escolha. Prepotente
CCLXX. Porque Impaciente, essa era a essência da Avaliação Divina.
CCLXXI. Mas lúcifer Precisaria da Cooperação de Deus, “O Tirano”, para poder levar a cabo Seu Próprio Intento.
CCLXXII. [...]
CCLXXIII. [...]
CCLXXIV. “Vamos à Borda, Lúcifer”, Disse Deus. Precisas de
CCLXXV. Mim para o Seu Plano [Começo e Fim]. Não é
CCLXXVI. Irônico?!”Mas Deus Não Riu. Deus debruçou-se
CCLXXVII. Sobre a Linha que Lúcifer chamava de “Mãe da
CCLXXVIII. Dualidade”, e disse assim: “Anjo Meu, Luminoso
CCLXXIX. E Impaciente, Queres Alguma Abertura no Não-Ainda
CCLXXX. Para Testar a Riqueza e Beleza Dessa Tua Concebida
CCLXXXI. Dualidade e Relação à Toda Emanação Minha Que Só
CCLXXXII. Provém da Fonte?!”Não Acha Isso Mais Justo da Parte
CCLXXXIII. Minha?!”
CCLXXXIV. Lúcifer detestava quando Deus Lhe Tratava Como
CCLXXXV. Criança Divina.
CCLXXXVI. “Pois Bem; Aqui Tens de Mim um Olhar Sobre Teu
CCLXXXVII. Caminho”. Dobremo-nos à Borda, Dobremo-nos sobre
CCLXXXVIII. A Borda; Mas Não Caia, Lúcifer”.
CCLXXXIX. Lúcifer receava, no Íntimo, Duvidar do Alcance de Sua Própria
CCXC. Luz, e Perder-se em Moldura de Escuridão Infinita.
CCXCI. “Tu a Ti Te Chamas Lúcifer”. Mas Permita-me, Anjo Meu,
CCXCII. A partir de Agora Chamá-lo Samael, “O Anjo Cego”,
CCXCIII. Porque Escolheu Olhar para o Limite do Que Ainda
CCXCIV. Não Pode Ver. Alguns te Chamarão “Satã”, “O Que Divide”,
CCXCV. Justamente por te debruçares na Linha [a Minha Borda],
CCXCVI. E Amares a Dualidade. Como Eu, considerado pelos
CCXCVII. Mais Simples como tendo Três Nomes [Trindade como
CCXCVIII. Gérmen de Minha Auto-Criação Incessante], Também agora a Mim te Igualas: tens também Três Nomes: Lúcifer, Satã,
CCXCIX. Samael. Eis meu primeiro Ato de Justiça a Ti.
CCC. [...]
CCCI. [...]
CCCII. Não se Sabe se Samael-Satã-Lúcifer Ficou Satisfeito com Essas primeiras Palavras de Deus. Mas Ele Não Se Mostrou Tirano,
CCCIII. Contrariando o Atributo que o Anjo Lhe Dera. Os Outros a
CCCIV. Tudo Observavam e Julgavam. Havia pelos menos Oitocentas
CCCV. Hostes de Anjos Mais Luminosos do Que Lúcifer [pois que cada
CCCVI. Emanação de Deus tem Características Únicas e Singulares],
CCCVII. Mas Eles a Si mesmos Não se Nomeavam por Tal Atributo [o tal “quantum de Luz”]. Não Importam Seus Nomes.
CCCVIII. Alguns se Manifestaram a Homens, em Todos os Povos [não só o Hebreu]. Deus é Deus do universo e seus Emissários Envia à Todo canto onde lhe Apraz e Se faz Necessário. Não é Só o Deus da Terra, muito menos só o Deus de Uma Tribo, ou de Doze
CCCIX. Perfazendo Uma.
CCCX. Para Se Ter um Exemplo, à Suméria Deus Enviou alguns Anjos
CCCXI. Femininos, Dos Quais darei apenas Dois Nomes: Siduri e
CCCXII. Hákara. Anjos São Zeladores de alguns dos Mistérios Divinos, e Expressam Frações de Suas
CCCXIII. Luzes. Hákara e Siduri estavam lá.
CCCXIV. Havia um Círculo de Anjos Imantados à Visão de Samael e
CCCXV. Deus Sobre a Borda: eram Cinco. E não estariam Destinados ao Povo de Israel. Mas a Outros. Dispensariam
CCCXVI. A diversos povos frações de uma “Linhagem do Conhecimento”. Os Anjos Dispensadores das Frações
CCCXVII. [Números, de novo] das tais Linhagens, Possuíam
CCCXVIII. Mais Luz do que Samael, mas dIsso não Se
CCCXIX. Ufanavam.
CCCXX. Quão Ampla & Diversa & Rica é a Obra de
CCCXXI. Deus. Aos Crédulos ou a Quem não Acredita.
CCCXXII. [...]
CCCXXIII. [...]
CCCXXIV. Deus disse então a Samael: “Soprarei além Borda,
CCCXXV. Par que Possas Seguir o Sopro com Sua Presença
CCCXXVI. Ou Com Sua Luz.
CCCXXVII. E Será, como Queres tu, O reino da Dualidade,
CCCXXVIII. De Sua Própria Bordadura. Acompanhe-me”.
CCCXXIX. [...]
CCCXXX. [...]
CCCXXXI. Harut e Marut, Anjos que revelariam Coisas
CCCXXXII. Necessárias aos Árabes, a Tudo Assistiam.
CCCXXXIII. [..]
CCCXXXIV. E deus Fez Aquela Partilha das águas Universais,
CCCXXXV. Que a Samael Serviu como Trilho ou
CCCXXXVI. Trilha. E não é que era Bom o Deus?! Assim consideraram
CCCXXXVII. Marut e Harut e Hákara, Siduri e
CCCXXXVIII. Mikhael.
CCCXXXIX. Deus soprou e gerou um “palco-plano” de
CCCXL. Elementos contrapostos e duais: Dia
CCCXLI. E Noite, Fogo e
CCCXLII. Água. Samael quis chamar ao conjunto da Trama
CCCXLIII. Que Empreenderia de “Teia de Bem e Mal. E Deus
CCCXLIV. Assim Concedeu que
CCCXLV. Fosse.
CCCXLVI. Djins Diversos Apreendiam bem os Planos,
CCCXLVII. Bem como Serafins e
CCCXLVIII. Arcanjos.
CCCXLIX. As Luzes em Deus Engendravam Misericórdia Durante a
CCCL. Própria Execução do
CCCLI. Ato.
CCCLII. [...]
CCCLIII. [...]
CCCLIV. Foi feito então esse plano-palco misto, para Samael
CCCLV. Exercitar Seu Olho e Seu Padrão
CCCLVI. de Justiça.
CCCLVII. Seres que Não Ambicionavam Tanto
CCCLVIII. [Waldroo Drop, Urik, Azumah] Futuros
CCCLIX. Auxiliares dos Anjos para cantos Diversos Já
CCCLX. Entendiam a Limitação do Escopo da
CCCLXI. Criação
CCCLXII. Dual.
CCCLXIII. Waldroo Drop traduziu aquela Trama, em Seus
CCCLXIV. Olhos-em-Chama em Mosaico,
CCCLXV. Verde e Vermelho. Zelaria por
CCCLXVI. Humanas Tribos Indígenas, nos Futuros Territórios do Canadá e
CCCLXVII. Centro América. Agnes, Anjo Feminino, com ele alguma
CCCLXVIII. Coisa Partilhava.
CCCLXIX. [...]
CCCLXX. [...]
CCCLXXI. No Mundo Dual havia um Trono. Samael pensou a Ele mesmo destinado.
CCCLXXII. Não.
CCCLXXIII. Deus Era Mais Justo. Sabiam dIsso Kanzeon e Kuan Yin,
CCCLXXIV. Anjos Irmanados.
CCCLXXV. Deus iria deixar o Trono do Mundo Dual a ser emanado
CCCLXXVI. A partir de dentro do Conflito. No centro da Dupla Posição.
CCCLXXVII. Alguma Objeção?!
CCCLXXVIII. Disso não Discordou nem a Assembléia dos Vinte
CCCLXXIX. E Sete por Cento dos Anjos e Auxiliares
CCCLXXX. De Samael mais
CCCLXXXI. Amigos. Deus Era Bom Tribuno e
CCCLXXXII. Fiel.
CCCLXXXIII. “Saiamos de Cena Os Dois: o Trono do Palco
CCCLXXXIV. Dual não é Meu nem Teu, mas deste que
CCCLXXXV. Sopro em meio aos Elementos:
CCCLXXXVI. Sopra-lhe, também, a Escuridão no
CCCLXXXVII. Ouvido.”
CCCLXXXVIII. [...]
CCCLXXXIX. [...]
CCCXC. Todos se Encantaram com o Engenho de
CCCXCI. Deus. O Plano e o Palco eram Justos. Não
Obra de Tirano. O que dizer
Disso.
CCCXCII. Samael teria de seguir com seu Plano em
CCCXCIII. Exílio. Falou a alguns com a Forma que condisse
CCCXCIV. Com tua escolha e afastamento:
Membranosa. Reptiliana. Por isso se diz ser “O Tentador”
a Serpente.
CCCXCV. Algumas Pessoas Emocionais lhe deram
CCCXCVI. Ouvidos. A convenção fez considerar que fossem Mulheres, pelo fato de ser a Emocionalidade um de seus atributos.
CCCXCVII. Mas muitos Homens Emocionais também deram
CCCXCVIII. Ouvidos aos
CCCXCIX. Répteis, cuja Essência do discurso era assim:
CD. “Dias e Noites em Sucessão é o que há de melhor;
CDI. Prova do Bem e do Mal, de Toda a Trama, que Essa é a Vida
CDII. Mais Plena, ao contrário do que dizem os Emissários do
CDIII. Criador”.
CDIV. Quem assim falava aos homens eram os “répteis” [Draconianos,
CDV. Reptilianos ou
CDVI. Serpentes, conforme a linhagem da
CDVII. Tradição]. Eram os Emissários de Samael, que não podia se dar a conhecer antes da escolha consumada.
CDVIII. Deus Também só falava por Emissários, conforme
CDIX. A Justiça Programada. E a Toda à Terra: China, Egito,
CDX. Suméria, Povos D’África, Tribos Nômades.
CDXI. A certa Tribo um de seus Emissários mais Ríspidos e Enérgicos
CDXII. Apresentou-se como “Eu Sou o Que Sou”, porque não podia
CDXIII. Dar Nome que não Fosse
Seu. Não Poderia Dizer que Era Deus, porque tal Tribo Precisava da Presunção de ter Exclusivo Contato
Direto.
Idiossincrasia Tribal.
Eu Sou o que Sou sempre foi Emissário: Nunca o Próprio
Criador. Assim como Samael Não Se Dirige ao Homem senão
Por seus comandados
CDXIV. Reptilianos que passaram a temer a Luz.
CDXV. Os Homens que aceitaram a dualidade como Superior à Trama Original passaram a temer O Olhar dos Emissários da
CDXVI. Luz. E Isso foi sua Forma de “Filiação às Trevas”.
CDXVII. Assim, Samael arregimentava Servos.
CDXVIII. Deus não gosta de Servos, mas espera que O
Escolham. Que o homem mesmo o escolha. O ser
Engendrado no meio da Dualidade.
CDXIX. Por Curiosa transposição de termos, em Inversão
CDXX. Poética que melhor Traduz a Justiça de Mão-Dupla de Deus,
CDXXI. Passou-se a Chamar aos que “O escolhem” de Escolhidos.
CDXXII. É correto no sentido de que Ele
CDXXIII. Não Se impõe, mas Deixa Escolher-Se. E Acolhe aos que
CDXXIV. O Escolhem, de Livre e Espontânea
CDXXV. Vontade.
CDXXVI. [...]
CDXXVII. [...]
Como o Livre Samael propôs e supôs ser seu Mundo Mais Justo e
Completo, Deu-se-lhe a Oportunidade de ganhar adesão de
Criaturas Livres à Sua Proposta. Os Textos

CDXXVIII. Que metaforizam Isso, muitas vezes de forma
CDXXIX. Grosseira, como na Parábola de Jó, nada mais querem expressar do que algo da dramaticidade desse “palco-plano de Liberdade”, onde se inscreve o Homem.
CDXXX. Consciente do que é
CDXXXI. Dual, o Homem não faz o seu trabalho com plena integração e júbilo: ele sua, sofre, sangra. Antecipa, se impacienta. Não é
CDXXXII. Castigo, mas imersão na própria dualidade que traz como corolário o fragmento da
CDXXXIII. Impaciência [Escolha] do próprio
CDXXXIV. Samael.
CDXXXV. Disso tudo deve ter o Homem
CDXXXVI. Ciência.
CDXXXVII. O que acolhe e como acolhe.
CDXXXVIII. O que escolhe.
CDXXXIX. [...]
CDXL. [...]
CDXLI. Se Antes as Criaturas Todas
CDXLII. Originadas da Fonte e sem suspirar pela Borda podiam desfrutar de um avançar-em-paciência acompanhado pelo Olhar do Próprio Criador, agora o homem poderia contar , no máximo, com seus emissários, e com as provas e livres
CDXLIII. Escolhas do plano-palco
CDXLIV. Dual. Assim sendo, nem a grandeza de Deus nem o Olhar Cego de Samael poderiam diretamente se impingir ao homem, mas sim suas escolhas e seus emissários.
CDXLV. [...]
CDXLVI. [...]
CDXLVII.
CDXLVIII. A Aposta de Samael era absolutamente
Rústica e Intransigente. Ele Se Atrevia a Dizer o Seguinte: “Dê ao
Homem a Livre Escolha que Ele escolherá Minha Mescla: a Dualidade
Superior à Sua Intransigência ou Tirania” Mesmo que o Homem experimente Decadência, Doença, Velhice ou Morte. Terá um Belo Quinhão de bem e mal.
CDXLIX. Em Si Mesmo As Luzes de Deus Conceberam
CDL. Um Algo que Provaria a Samael no Centro Mesmo de Suas Presunções:
CDLI. Uma Hipóstase de Deus, Engendrada a partir de Dentro Tomaria Toda a Carga do Mundo Dual, Exemplificando [e Provando a Excelência da Escolha Nas Próprias Condições dadas por Samael, e Aceitas por
CDLII. Deus, em Nome da Liberdade de
CDLIII. Escolha.
CDLIV. Vários já havia dado um belo “tapa” no Olho Cago do Anjo, provando da Dualidade do mundo e dela abdicando, por desprezá-la. Vários já haviam optado pela Luz, pós- conhecimento das Trevas co-implicadas na Dualidade Proposta por Samael. Buda assim o fizera, exemplarmente. Desmontara a Rede na qual se enredara por exemplar auto-esclarecimento “desilusionário”.
CDLV. Esse desmanche da Teia Dual a partir de dentro irritava sobremodo o Orgulhoso Pai dos
CDLVI. Répteis. Chefe dos
CDLVII. Dragões. Príncipe deste mundo.
CDLVIII. O Príncipe Gautama o esbofeteara como poucos, tendo tudo para saciar-se sob seus critérios, mas optando pela mendicância e auto-sobriedade. Feitos operados pelo Desmanche
CDLIX. Das Ilusões. Saída do Circuito das Compulsões aos Pólos da Dualidade.
CDLX. [...]
CDLXI. Deus Muito se Agradava de Gautama [O Buda], de Sócrates, de Pitágoras, de Lao-Tsé e de predecessores de seu Próprio Intento.
CDLXII. Era claro que o homem não poderia conhecer a Deus face a face, nem a Samael. Apenas seus
CDLXIII. Torpes servos[...].
CDLXIV. Os Auxiliares dos Anjos de Deus inspiravam métodos aos homens de boa-vontade de todos os povos. Deus nunca foi territorialista, nem nacionalista nem patriota. Muito menos Colonialista. O palco-plano Dual era prova de sua
CDLXV. Isenção e Liberdade Concedida.
CDLXVI. O Bem nunca se
CDLXVII. Impõe. Não Arromba Portas. Mas Sussurra aos Ouvidos de Boa Vontade.
CDLXVIII. Não se Perca Isso de Vista.
CDLXIX. [...]
CDLXX. [...]
CDLXXI. Então Deus engendrou um Gesto no Seio de Suas Mesmas Luzes que Era Experimentar como Homem o mesmo Plano Tomado por Samael como Criação Superior, Expondo-se aos Choques e Contradições
CDLXXII. Desses mesmos Elementos
CDLXXIII. Duais.
CDLXXIV. Dessa forma ale de viver finitamente [e por tempo humano] o modelo de Criação de seu Contestador, deus se daria a ver agindo no Plano Dual sem Romper o Trato.
CDLXXV. Simples e Engenhoso.
CDLXXVI. Além de Magnânimo, Justo e Misericordioso.
CDLXXVII. [...]
CDLXXVIII. [...]
CDLXXIX. Cada Um Desses Atributos pode Ser Facilmente Explanado. Justo Era Experimentar o Limite Proposto por Samael como se fora Transcendência da Tirania de Deus: o que Ele Mesmo [O Anjo Cego] Sabia tratar-se de
CDLXXX. Impostura. Porque agora era ele mesmo
CDLXXXI. E seus Répteis comandados
CDLXXXII. Escravos de luxúrias, ambições e medos. Tinham de escravizar. Tinham de possuir
CDLXXXIII. Servos.
CDLXXXIV. Deus queria Servir, para Dar-se a
CDLXXXV. Conhecer. Sem Servilismos aliciados. Toda a idéia de que Deus quer “servos” é uma contrafação armada pelos próprios emissários de Samael. Sem
CDLXXXVI. Exceção.
CDLXXXVII. Deus quer Escolha.
CDLXXXVIII. Ou “Os que O Escolham”.
CDLXXXIX. Os Assim-Chamados “Escolhidos”, por serem os “Livres Escolhedores”. E que farão Boa Colheita.
CDXC. [...]
CDXCI. [...]
CDXCII. Experimentando o Pathos [Dor, Paixão] da Vida entre elementos Duais e exemplificando o que Deus mesmo poderia escolher estando submetido [temporariamente] às regras de Samael, o Criador faria Triplo Trabalho:
CDXCIII. Mostraria a Samael uma vida não de fastio e superação do dual [como o fez Buda, por exemplo], o que para Samael já era intolerável.
CDXCIV. Mas exemplificaria uma trajetória límpida em plano intrinsecamente maculado. Essa era a Tarefa
CDXCV. Primeira.
CDXCVI. Como Não Podia Dar-Se e Muitos mensageiros e intermediários encontravam obstruções às suas tarefas no egoísmo de homens e tribos e povos [e o nacionalismo é o egoísmo exponenciado ao território ou nação], Ele se
CDXCVII. Mostraria através de uma Emanação
CDXCVIII. Límpida.
CDXCIX. Através de seu Filho.
D. Ele falaria em Nome do Pai e Diria: "Quem a Mim Vê, Vê ao Pai". Sua Trajetória Serviria para Exemplificar o Homem Possível como Sonhado No Seio Das Luzes de Deus, mesmo lançado ou imerso no seio das regras de Samael. Eis a Segunda
DI. Tarefa.
DII. A Partir de Então, Todo Homem que se dirigisse ao Pai através do Filho, Seria restituído ao Antigo Diálogo Quebrado Desde a Condição do Plano Dual [Descenso ou Queda, em nome da Livre Escolha entre Pólos].
DIII. Há Seres que nunca escolheram “Descer”.
DIV. Todos os que desceram eram almas que queriam “experimentar as dualidades”, por se sentirem tentados à Lógica de Samael. Sem Exceção. Mesmo os Libertadores no seio mesmo da Dualidade. Eis a [...] Tarefa.
DV. [...]
DVI. [...]
DVII. Que fique registrado que há miríades de seres que evolvem dos elementos todos [ar, fogo, éter] à condição de devas, sem nunca pretenderem passar pelo Reino Humano. Por Livre Escolha. A escolha de Nascimento Humano é para todos os espíritos que conceberam a possibilidade ou validade ou legitimidade da Lógica de Samael. Ou seja: “Quiseram Provar do Fruto da Dualidade como Superior à “Mesmice” da Evolução Pura e Divinamente Ordenada.
DVIII. O sacrifício do Filho consiste em nunca ter advogado tal experiência, mas fazê-la para abrir um Canal de Intermediação Direto entre Deus e Homem.
DIX. [...]
DX. [...]
DXI. Eis o Supremo Sacrifício. Eis a Suprema Tarefa.
DXII. Eis o “Tornar-se Carne e Sangue em nome de muitos”.
DXIII. Para Diálogo, Exemplificação e Intermediação.
DXIV. Para dar a Conhecer a Face [ou Vontade] do Pai.
Terceira Tarefa.
DXV. [...]
DXVI. [...]
DXVII. Eis Tudo que é para ser dito sobre o Filho, que não seja especulação de teólogos comprometidos com Instituições Terrenas e facções.
DXVIII. Eis porque Deus também se agrada de todo homem que “tendo provado da dualidade, a ela dá as costas”.
DXIX. Eis porque Deus se agrada de todo homem descrito como “Filho Pródigo”, o que se serve das futilidades do mundo para dizer “foi tudo em vão”, e depois se transforma.
DXX. Porque tais homens provam, no seio mesmo da lógica de Samael, que Seu reino pode ser repudiado até por quem não conheceu diretamente a Luz, mas rumou em direção a Ela.
DXXI. Tal se deu com os Profetas e Santos de todos os Povos. São poucos, mas sempre existiram.
DXXII. E também se dará para o que aprender com o filho e, a partir dele, procurar uma interlocução direta com deus. A isso [essa Interlocução] certa Tradição passou a chamar “Ação do Espírito Santo”. Ou Infusão pelo Espírito. Ou Unção. É um Nome útil como qualquer outro.
DXXIII. [...]
DXXIV. Eu, Caim, desgostei-me de pleitear as coisas ao modo de Samael, querendo conquistar o que meu não era, e cobiçando a Borda do que se me divisava.
DXXV. Fosse ela uma posse, um dom, um
DXXVI. Talento outro, a afeição dada a
DXXVII. Abel. Por isso me fiz ao Modo de Samael , até que me visitasse o filho, ao descer da Cruz aos Ínferos [como coroação de seu sacrifício], visitando as hostes e Servos da Serpente.
DXXVIII. Aos que pôde Libertar, Libertou.

Amén.














Ps. O escriba pede desculpas pelas lacunas, ou eventuais erros ortográficos. O pergaminho não permitiu trabalho mais satisfatório.




Marcelo Novaes

domingo, 25 de outubro de 2009


Pranto Primeiro


Existe algo de sórdido nessa
comédia. Até porque não há
nenhuma
graça.


Alguns riem um riso torto,
enquanto um homem bom
chora no
horto.


A Graça advém
disso.










Marcelo Novaes


Onde Os Sentidos Não Mais Ensinam


Veem a Deus aqueles que se purificam e vivem continuamente na lembrança de Deus. O reino não se encontra nas obras do pensamento, e só podemos saboreá-lo pela graça. Enquanto o homem não for purificado, ele nem mesmo pode falar disso, porque não há ensinamento próprio e só é permitido adquiri-lo através da pureza de coração. É através da pureza da vida que Deus dá pensamentos puros. Das penas e da vigilância do coração decorre a pureza dos pensamentos; desta vem a luz; e, por ela, a inteligência é levada lá onde os sentidos não mais ensinam.







Isaac, o Sírio (séc. VII) monge em Nínive, perto de Mossul, no atual Iraque


Entrevoo


Um gesto de mão
enxota o pássaro
inoportuno.


O aquietar dos ombros
atrai o pássaro benfazejo,
azul-noturno.


O olhar de compaixão
transpassa
ambos.











Marcelo Novaes


Maiêutica Budista: Moradas de Brahma


Digha Nikaya 13



Tevijja Sutta [O Conhecimento Tríplice – O Caminho para Brahma]







1. Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava perambulando por Kosala com uma grande sangha de bhikkhus até que por fim acabou chegando em um vilarejo brâmane denominado Manasakata e se instalou ao norte do vilarejo em um manguezal às margens do Rio Aciravati.


2. Agora, naquela ocasião muitos brâmanes prósperos e bem conhecidos estavam em Manasakata, isto é, o brâmane Canki, o brâmane Tarukkha, o brâmane Pokkharasati, o brâmane Janussoni, o brâmane Todeyya.


3. Vasettha e Bharadvaja estavam caminhado ao longo da estrada, como costumavam fazer, quando iniciaram uma discussão sobre o tema do caminho correto e do incorreto.


4. O estudante Brâmane Vasettha disse: “Este é o único caminho correto, este é o caminho direto, o caminho da salvação que conduz aquele que o segue à união com Brahma, da forma como foi ensinado pelo Brâmane Pokkharasati!”


5. E o estudante Brâmane Bharadvaja disse: “Este é o único caminho correto … da forma como foi ensinado pelo Brâmane Tarukkha!”


6. Mas o estudante brâmane Vasettha não foi capaz de convencer o estudante brâmane Bharadvaja, nem o estudante brâmane Bharadvaja foi capaz de convencer o estudante brâmane Vasettha.


7. Então o estudante brâmane Vasettha disse para o estudante brâmane Bharadvaja: “O contemplativo Gotama está ao norte do vilarejo e acerca desse contemplativo existe essa boa reputação: ‘Esse Abençoado é um arahant , perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, desperto, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta população com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. É bom poder encontrar alguém tão nobre.’ Vamos até o contemplativo Gotama perguntar-lhe sobre isso, aquilo que ele nos disser, deveríamos aceitar.” E o estudante brâmane Bharadvaja concordou.


8. Assim, os dois foram até o Abençoado e eles se cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado eles sentaram a um lado e Vasettha disse: “Mestre Gotama, quando estávamos caminhando ao longo da estrada começamos a discutir sobre os caminhos corretos e incorretos. Eu disse: ‘Este é o único caminho correto … da forma como foi ensinado pelo Brâmane Pokkharasati’ e Bharadvaja disse: ‘Este é o único caminho correto … da forma como foi ensinado pelo Brâmane Tarukkha.’ Essa é a nossa disputa, a nossa rixa, nossa diferença.”


9. “Então, Vasettha, você diz que o caminho para a união com Brahma é ensinado pelo Brâmane Pokkharasati e Bharadvaja diz que ele é ensinado pelo Brâmane Tarukha. Mas sobre o que é a disputa, a rixa, a diferença?”


10. “Caminhos corretos e incorretos Mestre Gotama. Existem vários tipos de Brâmanes que ensinam diferentes caminhos: o Addhariya, o Tittiriya, o Chandoka, o Chandava, o Brahmacariya - todos esses caminhos conduzem à união com Brahma? Como se houvesse próximo a uma cidade ou vilarejo muitos caminhos diferentes, todos esses caminhos chegariam juntos no mesmo lugar? E da mesma forma, os caminhos dos vários Brâmanes … conduzem aqueles que os seguem à união com Brahma?”


11. “Você diz: ‘Eles conduzem,’ Vasettha?” - “Eu digo: ‘Eles conduzem,’ Mestre Gotama.”
“Você diz: ‘Eles conduzem,’ Vasettha?” - “Eu digo: ‘Eles conduzem,’ Mestre Gotama.”
“Você diz: ‘Eles conduzem,’ Vasettha?” - “Eu digo: ‘Eles conduzem,’ Mestre Gotama.”


12. “Mas, Vasettha, existe pelo menos um desses brâmanes, mestres nos três Vedas, que tenha visto Brahma cara a cara?” - “Não Mestre Gotama.”
“Então o mestre de algum desses mestres viu Brahma cara a cara?” - “Não, Mestre Gotama.”
“Então os ancestrais até a sétima geração passada do mestre de algum desses mestres viu Brahma cara a cara?” - “Não, Mestre Gotama.”


13. “Como então, Vasettha, os antigos brâmanes videntes, os criadores dos mantras, os compositores dos mantras antigos, que antigamente eram recitados, falados e compilados, e que ainda hoje os brâmanes recitam e repetem, repetindo o que foi dito e recitando o que foi recitado – isto é, Atthaka, Vamaka, Vamadeva, Vessamitta, Yamataggi, Angirasa, Bharadvaja, Vasettha, Kassapa e Bhagu – eles alguma vez disseram: ‘Nós sabemos e vemos como e onde Brahma aparece’?” - “Não, Mestre Gotama.”



14. “Portanto, Vasettha, nenhum desses Brâmanes, mestres nos três Vedas, viu Brahma cara a cara, tampouco um dos mestres desses Brâmanes, ou os mestres dos mestres, nem mesmo as últimas sete gerações ancestrais de um dos mestres. Nem mesmo um dos antigos sábios poderia dizer: ‘Nós sabemos e vemos, quando, como e onde Brahma aparece.’ Então aquilo que esses Brâmanes, mestres nos três Vedas estão dizendo é: ‘Nós ensinamos este caminho para a união com Brahma que nós não conhecemos nem vemos, este é o único caminho correto … conduzindo à união com Brahma.’ O que você pensa, Vasettha? Sendo esse o caso, aquilo que esses Brâmanes declaram não se mostra sem fundamento?” - “Sim, de fato, Mestre Gotama.”



15. “Bem, Vasettha, quando esses Brâmanes, mestres nos três Vedas ensinam um caminho que eles não conhecem nem vêm, dizendo: ‘Esse é o único caminho direto …,’ não é possível que isso seja correto. Como uma fila de homens cegos segurando um no outro, o primeiro nada vê, o do meio nada vê e o último nada vê – assim é a conversa desses Brâmanes, mestres nos três Vedas: o primeiro nada vê, o do meio nada vê, o último nada vê. A conversa desses Brâmanes, mestres nos três Vedas aparece como motivo de risos, como meras palavras, vazias e inúteis.”


16. “O que você pensa, Vasettha? Esses Brâmanes, mestres nos três Vedas, vêm o sol e a lua da mesma forma como as outras pessoas os vêm, e quando o sol e a lua nascem e se põem, eles rezam, cantam louvores e veneram com as mãos postas?” - “Eles assim fazem, Mestre Gotama.”


17. “O que você pensa, Vasettha? Esses Brâmanes, mestres nos três Vedas, que vêm o sol e a lua da mesma forma que as outras pessoas, eles podem indicar um caminho para a união com o sol e a lua, dizendo: ‘Este é o único caminho … que conduz à união com o sol e a lua’?” - “Não, Mestre Gotama.”


18. “Portanto, Vasettha, esses Brâmanes, mestres nos três Vedas não podem indicar um caminho para a união com o sol e a lua, vistos por eles. E, também, nenhum deles viu Brahma cara a cara … nem mesmo as últimas sete gerações ancestrais de um dos mestres. Nem mesmo um dos antigos sábios poderia dizer: ‘Nós sabemos e vemos quando, como e onde Brahma aparece.’ Aquilo que esses Brâmanes declaram não se mostra sem fundamento?” - “Sim, de fato, Mestre Gotama.”


19. “Vasettha, suponha que um homem dissesse: ‘Eu estou apaixonado pela moça mais bonita deste país.’ Então eles lhe perguntariam: ‘Bom homem, essa moça mais bonita deste país pela qual você está apaixonado – você sabe se ela é da classe nobre ou da classe dos brâmanes, ou da classe dos comerciantes, ou da classe dos trabalhadores?’ e ele responderia: ‘Não.’ Então eles lhe perguntariam: ‘Bom homem, essa moça mais bonita deste país pela qual você está apaixonado – você sabe o nome e o clã dela? … Se ela é alta ou baixa ou com estatura média? … Se ela tem a complexão escura, clara ou dourada? … Qual vilarejo, vila ou cidade ela vive?’ e ele responderia: ‘Não.’ E então eles lhe perguntariam: ‘Bom homem, você então está apaixonado por uma moça que você nem conhece ou viu?’ e ele responderia: ‘Sim.’ O que você pensa, Vasettha, em sendo assim, a conversa daquele homem não seriam apenas tolices?” - “Com certeza, Mestre Gotama.”


20. “Então, Vasettha, é assim: nenhum desses Brâmanes … viu Brahma cara a cara, tampouco um dos mestres desses Brâmanes …” - “Sim, de fato, Mestre Gotama.”
“Correto, Vasettha. Quando esses Brâmanes, mestres nos três Vedas ensinam um caminho que eles não conhecem e vêm, não é possível que isso seja correto.”


21. “Vasettha, é como se um homem fosse construir uma escadaria para um palácio numa encruzilhada. As pessoas poderiam dizer: ‘Essa escadaria para o palácio – você sabe se a frente do palácio estará para o leste ou oeste, norte ou sul ou se o palácio será alto, baixo ou médio?’ e ele diria: ‘Não.’ E elas poderiam dizer: ‘Bem então, você não sabe ou imagina para que tipo de palácio está construindo a escadaria?’ e ele responderia: ‘Não.’ A conversa daquele homem não seriam apenas tolices?” - “Com certeza, Mestre Gotama.”
22-23. (igual ao verso 20)


24. “Vasettha, é como se este Rio Aciravati estivesse cheio de água até a borda de forma que um corvo pudesse nele beber, e um homem viesse desejando cruzar até a outra margem, até o outro lado e, estando em pé na margem, ele chamasse: ‘Venha para cá outra margem, venha para cá!’ O que você pensa, Vasettha? A outra margem do Rio Aciravati viria para esta margem por conta do chamado, pedido, súplica ou sedução daquele homem?” - “Não, Mestre Gotama.”


25. “Bem então, Vasettha, aqueles Brâmanes, mestres nos três Vedas que com persistência negligenciam aquilo que um Brâmane deveria fazer e com persistência fazem aquilo que um Brâmane não deveria fazer, declarando: ‘Nós fazemos súplicas a Indra, Soma, Varuna, Isana, Pajapati, Brahma, Mahiddhi, Yama.’ Mas esses Brâmanes que com persistência negligenciam aquilo que um Brâmane deveria fazer … poderão, como conseqüência do seu chamado, pedido, súplica ou sedução, obter após a morte, na dissolução do corpo, a união com Brahma – isso não é possível.”


26. “Vasettha, é como se este Rio Aciravati estivesse cheio de água até a borda de forma que um corvo pudesse nele beber, e um homem viesse desejando cruzar até a outra margem … mas ele estivesse atado e aprisionado nesta margem por uma forte corrente, com as mãos atrás das costas. O que você pensa, Vasettha? Aquele homem seria capaz de cruzar até a outra margem?” - “Não, Mestre Gotama.”


27. “Da mesma forma, Vasettha, na disciplina dos nobres esses cinco elementos do prazer sensual são chamados de correntes e grilhões. Quais cinco? Formas percebidas através do olho que são desejáveis, agradáveis e fáceis de serem gostadas, conectadas com o desejo sensual e que provocam a cobiça. Sons percebidos através do ouvido … Aromas percebidos através do nariz … Sabores percebidos através da língua … Tangíveis percebidos através do corpo que são desejáveis, agradáveis e fáceis de serem gostados, conectados com o desejo sensual e que provocam a cobiça. Esses cinco elementos do prazer sensual na disciplina dos nobres são chamados de correntes e grilhões. E, Vasettha, aqueles Brâmanes, mestres nos três Vedas, estão escravizados, apaixonados por esses cinco elementos do prazer sensual, dos quais eles desfrutam com um senso de culpa, sem se dar conta do perigo, sem saber como escapar.”



28. “Mas que esses Brâmanes, mestres nos três Vedas, que com persistência negligenciam aquilo que um Brâmane deveria fazer … que estão escravizados por esses cinco elementos do prazer sensual … sem saber como escapar, possam alcançar depois da morte, com a dissolução do corpo, a união com Brahma – isso não é possível.”


29. “É como se este Rio Aciravati estivesse cheio de água até a borda de forma que um corvo pudesse nele beber, e um homem viesse desejando cruzar até a outra margem … e ele se deitasse na margem, cobrindo a cabeça com um xale. O que você pensa, Vasettha? Aquele homem seria capaz de chegar até a outra margem?” - “Não, Mestre Gotama.”


30. “Da mesma forma, Vasettha, na disciplina dos nobres esses cinco obstáculos são chamados de obstruções, empecilhos, envolvedores, coberturas. Quais cinco? O obstáculo do desejo sensual, da má vontade, da preguiça e torpor, da inquietação e ansiedade, da dúvida. Esses cinco são chamados obstáculos, obstruções, empecilhos, envolvedores, coberturas. E esses Brâmanes, mestres nos três Vedas estão aprisionados, confinados, obstruídos, enredados por esses cinco obstáculos. Mas que esses Brâmanes, mestres nos três Vedas, que com persistência negligenciam aquilo que um Brâmane deveria fazer … que estão aprisionados … enredados por esses cinco obstáculos, possam alcançar depois da morte, com a dissolução do corpo, a união com Brahma – isso não é possível.”



31. “O que você pensa, Vasettha? O que você ouviu dito pelos Brâmanes que são veneráveis, anciãos, os mestres dos mestres? Brahma é sobrecarregado por esposa e riqueza ou ele não é sobrecarregado?” - “Não é sobrecarregado, Mestre Gotama.”
“Ele é cheio de raiva ou sem raiva?” - “Sem raiva, Mestre Gotama.”
“‘Ele é cheio de má vontade ou sem má vontade?” - “Sem má vontade, Mestre Gotama.”
“Ele é impuro ou puro?” - “Puro, Mestre Gotama.”
“Ele é disciplinado ou indisciplinado?” - “Disciplinado, Mestre Gotama.”



32. “E o que você pensa, Vasettha? Os Brâmanes, mestres nos três Vedas são sobrecarregados por esposas e riqueza ou não sobrecarregados?” - “Sobrecarregados, Mestre Gotama.”
“Eles são cheios de raiva ou sem raiva?” - “Cheios de raiva, Mestre Gotama.”
“Eles são cheios de má vontade ou sem má vontade?” - “Cheios de má vontade, Mestre Gotama.”
“Eles são impuros ou puros?” - “Impuros, Mestre Gotama.”
“Eles são disciplinados ou indisciplinados?” - “Indisciplinados, Mestre Gotama.”



33. “Portanto, Vasettha, os Brâmanes, mestres nos três Vedas são sobrecarregados por esposas e riqueza e Brahma não é sobrecarregado. Existe alguma comunhão, algo em comum entre esses Brâmanes sobrecarregados e Brahma que não é sobrecarregado?” - “Não, Mestre Gotama.”


34. “Isso é correto, Vasettha. Que esses Brâmanes sobrecarregados, mestres nos três Vedas, possam após a morte, com a dissolução do corpo, estar unidos com Brahma que não é sobrecarregado – isso não é possível.”


35. “Da mesma forma, esses Brâmanes, mestres nos três Vedas cheios de raiva … cheios de má vontade … impuros … indisciplinados, têm alguma comunhão, algo em comum com o disciplinado Brahma?” - “Não, Mestre Gotama.”


36. “Isso é correto, Vasettha. Que esses Brâmanes possam após a morte estar unidos com Brahma isso não é possivel. Mas esses Brâmanes, mestres nos três Vedas, tendo sentado à margem do rio, afundam com desespero, pensando poder encontrar uma passagem segura para a outra margem. Por conseguinte o seu conhecimento tríplice é chamado de o deserto tríplice, a selva tríplice, a destruição tríplice.’


37. Depois dessas palavras Vasettha disse: “Mestre Gotama, eu ouvi dizer: ‘O Contemplativo Gotama sabe o caminho para a união com Brahma.”’
“O que você pensa, Vasettha? Suponha que houvesse um homem que tivesse nascido e crescido em Manasakata, e alguém que viesse para Manasakata e estivesse perdido, perguntasse qual era o caminho. Aquele homem, nascido e crescido em Manasakata, ficaria num estado de confusão e perplexidade?” - “Não, Mestre Gotama. E porque não? Porque aquele homem conheceria todos os caminhos.”


38. “Vasettha, poder-se-ia dizer que aquele homem ao ser perguntado o caminho pudesse ficar confuso e perplexo, mas o Tathagata, ao ser perguntado sobre o mundo de Brahma e o caminho para chegar lá, com certeza não ficaria confuso ou perplexo. Pois, Vasettha, eu conheço Brahma e o mundo de Brahma e o caminho para o mundo de Brahma e o caminho da prática pelo qual o mundo de Brahma poderá ser conquistado.”


39. Com isso Vasettha disse: “Mestre Gotama, eu ouvi dizer: ‘O Contemplativo Gotama sabe o caminho para a união com Brahma.’ Seria bom se o Mestre Gotama pudesse nos ensinar o caminho para a união com Brahma, que o Mestre Gotama ajude o povo de Brahma!”
“Então, Vasettha, ouça e preste muita atenção àquilo que eu vou dizer.” - “Sim, venerável Senhor,” Vasettha respondeu. O Abençoado disse o seguinte:



40-75. “Vasettha, um Tathagata surge no mundo, um arahant , perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, desperto, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta população com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. Um discípulo segue a vida santa, pratica a virtude e alcança o primeiro jhana. (igual ao DN 2, versos 43-75)



76. “Então, com o coração pleno de amor bondade [maitri], ele permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de amor bondade, da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim, acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permanece permeando o mundo todo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.



77. “Como se um poderoso trompetista fizesse com pouca dificuldade uma proclamação aos quatro quadrantes, da mesma forma através desta meditação, Vasettha, através desta libertação da mente através do amor bondade ele não deixa nada sem ser tocado, nada no reino da sensualidade sem ser tocado. Esse, Vasettha, é o caminho para a união com Brahma.



78. “Então, com o coração pleno de compaixão [karuna] … alegria altruísta [mudita] … equanimidade [upeshka] ele permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de equanimidade, da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim, acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permanece permeando o mundo todo com a mente imbuída de equanimidade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.


79. “Como se um poderoso trompetista fizesse com pouca dificuldade uma proclamação aos quatro quadrantes, da mesma forma através desta meditação, Vasettha, através desta libertação da mente através da compaixão … alegria altruísta … equanimidade ele não deixa nada sem ser tocado, nada no reino da sensualidade sem ser tocado. Esse, Vasettha, é o caminho para a união com Brahma.


80. “O que você pensa, Vasettha? Um bhikkhu que assim permaneça será sobrecarregado por esposa e riqueza ou não sobrecarregado?” - “Não sobrecarregado, venerável Gotama. Ele não terá raiva … má vontade … será puro e disciplinado, venerável Gotama.”


81. “Então, Vasettha, o bhikkhu não é sobrecarregado e Brahma não é sobrecarregado. Aquele bhikkhu não sobrecarregado tem algo em comum com Brahma não sobrecarregado?” - “Sim, de fato, venerável Gotama.”
“Isso é correto, Vasettha. Então que aquele bhikkhu não sobrecarregado, após a morte, com a dissolução do corpo, possa alcançar a união com Brahma não sobrecarregado – isso é possivel. Da mesma forma um bhikkhu sem raiva … sem má vontade … puro … disciplinado … Então, que aquele bhikkhu disciplinado, após a morte, com a dissolução do corpo, possa alcançar a união com Brahma não sobrecarregado – isso é possível.”



82. Depois que isso foi dito os jovens brâmanes Vasettha e Bharadvaja disseram para o Abençoado: “Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Nós buscamos refúgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama nos aceite como discípulos leigos que nele buscaram refúgio para o resto da vida.”

sábado, 24 de outubro de 2009


Quatro Imensuráveis Tipos de Amor


“Monges e monjas são revolucionários. Eles acalentam uma grande inspiração, e é isso que lhes dá força para cortar a rede de apegos mundanos. Deixam para trás a vida familiar para entrar no caminho de Buddha, e aspiram amar e ajudar a todos, não apenas uma pessoa. Os monges valorizam sua liberdade para que possam ser uma fonte de felicidade para muita gente. Vendo quanta dificuldade e sofrimento há no mundo, sentem compaixão e querem ajudar aqueles que sofrem.



O sofrimento engolfa as pessoas em toda a parte. Bodhichitta é a aspiração de encontrar um caminho de luz [“que minha busca, esforços e méritos recaiam sobre todos os seres sencientes”, esse é o espírito de Boidhichitta; nota minha], um modo de desatar os laços do apego e ajudar os outros. Bodhichitta não significa abandonar aqueles a quem amamos, mas amá-los de um modo não possessivo, complicado ou triste. É o tipo de amor que oferece alegria e transforma o sofrimento. O amor que oferece alegria é chamado de maitri [“bondade amorosa”] e mudita [“alegria apreciativa”; regozijar-se com a conquista alheia]. O amor que transforma o sofrimento é chamado de karuna [“compaixão; empatia pela dor alheia”]. O amor que não é apegado e preserva a liberdade é chamado upeksha [“equanimidade”]. Aspiramos nos tornar monjes porque queremos esses Quatro Imensuráveis Tipos de Amor [Imensuráveis por não serem, inclusive, exclusivistas...; nota minha].”





Thich Nhat Hahn, extraído de Stepping into Freedom.


As Orlas das Tradições: um Koan Judaico-Cristão


Jesus, os Rabinos e uma imagem numa moeda


Uma das mais conhecidas e mais enigmáticas histórias da vida de Jesus é o relato do encontro relativo à imagem numa moeda. A história está em Mateus 22, 15-22; Marcos 12, 13-17 e Lucas 20, 19-26. Sua elaboração utiliza quase os mesmos termos nas três passagens.


De acordo com a história, alguns dos fariseus oponentes de Jesus enviaram pessoas com o fito de induzir Jesus a dizer coisas que servissem de pretexto à sua prisão. (Os fariseus constituíam o grupo religioso que iniciou as reformas e as interpretações da Torá que vieram a constituir o judaísmo rabínico, e eram pessoas que, de modo geral, ficavam do lado dos pobres contra a ocupação romana e seus aliados no establishment judeu. Alguns estudiosos vêem hoje o próprio Jesus como um fariseu, membro da ala “radical”. Nesse caso, “os fariseus” como grupo provavelmente não eram oponentes dele, havendo, no entanto, alguns membros individuais que o eram).


Uma das pessoas lhe perguntou: “Rabino, sabemos que o que falas e ensinas tem coerência; tu não te mostras diferente diante de ninguém, mas ensinas com toda a honestidade o caminho de vida que Deus exige. Dá-nos teu ensinamento sobre isto: ‘É ou não permitido que paguemos impostos ao imperador romano?’


Jesus, percebendo a ‘jogada’, lhes disse: ‘Mostrai-me uma moeda de prata. De quem é a imagem que nela está e de quem é a inscrição que traz?’


Façamos uma breve pausa. Onde estava a ‘jogada’? Como a moeda trazia o rosto de César, com a inscrição ‘Divus’ –Deus -, seu uso poderia constituir idolatria na lei judaica, devendo assim ser proibido. Todavia, conforme a lei romana se deve pagar impostos, de modo que a ‘jogada’ consistia em fazer que Jesus, respondendo de uma dada maneira, violasse a lei judaica e, respondendo de outra, violasse a lei romana. Em ambos os casos ele estaria sujeito à prisão.


Mas não foi assim que Jesus respondeu. Em vez disso, sua resposta à pergunta foi outra pergunta. (diz o folclore que esse é um antigo hábito judeu. Tal como ensinam: “Por que os judeus respondem a uma pergunta com outra pergunta?” Resposta: “Por que não?”).


De acordo com Mateus, Marcos e Lucas, Jesus perguntou: “De quem é a imagem que está nessa moeda?” O homem que lhe havia lançado o desafio respondeu: “de César!”. Então Jesus deu a resposta: “pois então daí a César o que é de César e daí a Deus o que é de Deus.” Essa resposta, dizem Mateus, Marcos e Lucas, pegou seus oponentes de surpresa, e eles foram embora e o deixaram em paz.


Apesar disso, há dois mil anos os cristãos discutem o que significa essa réplica. O que é de César e o que é de Deus? A resposta sugere duas esferas de vida distintas, uma governada por César e outra por Deus? Significa submeter-se à autoridade de César no mundo material e aderir a Deus no mundo espiritual? Como discernir a fronteira? Por que os autores da pergunta se foram? Foi simplesmente porque Jesus evitara os chifres do dilema que eles lhe tinham levado, não podendo assim ser preso por causa de sua resposta? Ou havia um sentido mais profundo na réplica? Seria ela simplesmente um koan, uma resposta que obriga aquele que fez a pergunta a procurar uma pergunta mais profunda ou alcançar a iluminação?


Vamos introduzir uma passagem do Talmude Babilônico, a compilação da sabedoria, dos debates e diálogos, dos jogos de palavras e parábolas, das explorações filosóficas e das decisões práticas de milhares de rabinos ao longo de um período que tem início por volta do começo da era cristã e vai até cerca de 500 d. C., alguns na Babilônia e outros na Terra de Israel.

Nossa passagem do Talmude aparece em Sanhedrin 38 a (tradução de Soncino, p. 240):

‘Nossos rabinos ensinam: Adão, o primeiro ser humano, foi criado como uma pessoa singular a fim de mostrar a grandeza do regente que esta além de todos os regentes, o Bendito Santo Uno. Porque, se um regente humano [como o imperador romano] cunha muitas moedas a partir de um só molde, todas as moedas cunhadas trazem a mesma imagem, todas têm a mesma aparência. Mas o Bendito Santo Uno moldou todos os seres humanos segundo a imagem divina, tal como Adão foi moldado segundo a imagem divina [Gen 1, 27], ‘b’çelem elohim’, à Imagem de Deus. E, no entanto, nenhum deles é igual ao outro”.


Absorvamos isso. Os rabinos fizeram uma analogia entre a imagem que um regente humano põe nas moedas de seu reino e a imagem que o Regente Infinito põe nas muitas “moedas” da humanidade. A própria diversidade das faces humanas mostra a unidade e o caráter infinito de Deus, ao passo que a uniformidade das moedas imperiais torna claras as limitações do poder de um imperador.



Agora vamos reler a história de Jesus com uma única linha e um único gesto acrescentados:

“De quem é a imagem que está nessa moeda?” – pergunta Jesus.
O autor da pergunta feita a ele reponde: “de César!”
Então Jesus põe a mão sobre o ombro do criador de problemas e pergunta: -E de quem é a imagem que está nessa moeda?

Talvez o criador de problemas balbucie uma resposta; talvez ele não precise fazê-lo. Só depois dessa resposta Jesus diz: “Logo, daí a César o que é de César e daí a Deus o que é de Deus.”


Ora, há um sentido mais profundo na resposta e na partida do criador de problemas. Jesus não se limitou a evitar a questão e a fugir do dilema. Ele deu uma resposta de maneira bem mais radical do que se tivesse dito simplesmente: “Pagai os impostos” ou “Não pagueis os impostos”, maneira que é profundamente radical, mas não dá razões óbvias para uma prisão. Jesus não propôs uma divisão das coisas entre o material e o espiritual. Ele redefiniu o assunto:


“Daí todo o vosso ser Àquele que imprimiu divindade em vós! –Vós, vós que sois um dos rabinos, meu irmão rabino –vós sabeis que essa é a essência da questão! Tudo o que fiz foi vos lembrar dela!”

A moeda do reino terreno importa muito pouco, caso o criador de problemas tenha ouvidos para ouvir.

Assim, o autor da pergunta se vai, de súbito profundamente perturbado pela questão de vida que tem diante de si.

Poderíamos perguntar: por que a linha que inseri não aparece nas três versões da história que chegaram até nós? É possível que ela tenha sido censurada quando a tradição cristã se viu diante das duas ameaças que foram um império disposto a esmagar essa religião e o convite de um império para que se tornasse a Igreja estabelecida. Ou é possível que Jesus nunca tenha dito tais palavras, dado que o fariseu autor da pergunta compreendeu o essencial da questão perfeitamente bem? Afinal, com base na pasagem do talmude, podemos facilmente imaginar que o ensinamento que compara a imagem de Adão criado por Deus com a imagem do imperador na cunhagem já fosse bem conhecida entre os rabinos.


Para mim, essa leitura das duas passagens – a do Talmude e a do Novo testamento – traz consigo dois níveis de maior integridade, de sentido mais profundo. O primeiro é que cada uma das passagens enriquece o sentido da outra. Lidas em conjunto, elas fundem o espiritual e o político, em vez de dividir o mundo em dois domínios. Nessa leitura, a alegação de que o Divino Regente rege o imperador inclui o reino político. Deus pode criar uma infinita diversidade e uma eterna renovação, sendo por isso bem mais rico do que o tesouro do imperador – que só pode criar uniformidade e repetição. Mas não se trata de mera asserção filosófica ou biológica. Como Deus rege todos os regentes, como Deus faz surgir em cada ser humano uma face peculiar de Deus, todo ser humano tem de seguir a Deus, não a César.


Sem a passagem do Talmude dos rabinos, a resposta de Jesus permanece obscura. Sem a história referente a Jesus, a passagem do Talmude dá a impressão de ser “meramente teológica”, sem incidência sobre a vida de todos os dias. Para tornar-se íntegro e criar integridade no mundo, essas passagens precisam uma da outra. Mas os editores e organizadores do Talmude e do Novo testamento cuidaram para que em nenhum dos textos aparecessem as duas passagens. Elas foram mantidas à força separadas uma da outra. Logo, o segundo nível de integridade que essa leitura me ensina é a importância de emendar as orlas das tradições cristã e judaica.


Na tradição judaica, o que torna sagrada uma veste é a cuidadosa e consciente tecedura da tzitzit – um certo tipo de orla que vai nos cantos da peça de vestuário. Assim como o proprietário de terras tem de permitir que os pobres e os que não têm terra colham o que cresce nos cantos de seu campo, assim também esses cantos da roupa nos recordam de que não são as boas cercas que fazem bons vizinhos; o que faz bons vizinhos são boas orlas.


O que faz uma orla orla é o fato de ela ser uma mistura de minha roupa com o ar do universo. O que cria a tzitzit é sua tecedura segundo um padrão consciente, sagrado – o fato de não ser uma orla mal acabada. Elas são orlas que celebram sua condição de orlas.


É disso que precisamos nas relações entre as duas tradições. Não a dissolução de todas as fronteiras, nem a dureza das paredes, das cercas; mas orlas conscientes, sagradas.


Creio que as duas passagens são tzitzit para ambas as tradições, unindo-se uma à oura como coréias de ligação que também prestam honras às duas vestes diferentes de que são parte. Se não conseguirmos unir essas orlas sagradas ou se as deixarmos tornar-se invisíveis, as vestes perderão seu caráter sagrado. Portanto, voltemos o rosto com olhos recém-abertos para ver aquilo que o Rabino Jesus e os rabinos do talmude têm em comum, bem como aquilo e que diferem.





Arthur Waskow



O Rabino Arthur Waskow é um dos principais criadores da teoria, da prática e das instituições do movimento da renovação judaica. É um Pathfinder [Buscador de Caminhos] da ALEPH Alliance for Jewish Renewal. Em 1983, fundou o Shalom Center (que continua a dirigir), divisão da ALEPH concentrada no pensamento e na prática judaicos. Autor de uma dezena de obras seminais sobre a renovação judaica. Recebeu o Benjamin Franklin Award em 1996. No mesmo ano, foi nomeado pela ONU um dos “quarenta guardiões da sabedoria”, grupo de líderes religiosos e espirituais de todo o mundo que se reuniu por ocasião da Conferência Habitat II, realizada em Istambul.


Extraído de “Jesus Segundo o Judaísmo”, organizado por Beatrice Bruteau, São Paulo, Ed Paulus, 2003.